INGLÊS

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LEGENDAGEM

INCLÊS

Professora responsável: Giovana Cordeiro Campos (UFF/LABESTRAD)

A tradução para legendagem faz parte do campo da Tradução Audiovisual (TAV), compreendendo a tradução de um texto oral (no caso da ENCIDIS, em português do Brasil) que é traduzido como texto escrito (no caso da ENCIDIS, em inglês). Para a produção de legendas precisam ser considerados fatores como a velocidade de leitura do possível espectador, a sincronia tempo/espaço, a rapidez das falas, o número máximo de caracteres por linha de legenda, o espaço da tela, dentre outros, tornando essencial a capacidade de síntese do tradutor/legendador. Como qualquer outra realização humana, a tradução para legendagem é constituída a partir das condições sócio-históricas e político-ideológicas do tempo e lugar de sua produção, as quais irão materializar as possíveis “escolhas” do sujeito que traduz/legenda. No caso da Enciclopédia, soma-se à oralidade das falas a característica de uma produção acadêmica, que visa também à divulgação de ciência.

Em nosso papel de tradutores/legendadores, mas também pesquisadores da linguagem, as questões que nos movem na tradução para o inglês são: devemos traduzir/legendar seguindo as regras da scientific writing (escrita científica), a qual preconiza fluência, clareza e objetividade e, com elas, uma estratégia mais domesticadora? Devemos privilegiar a síntese e a simplificação, as duas principais características da tradução para legendagem? Ou, por outro lado, enquanto tradutores/legendadores brasileiros e que atuam em um laboratório de tradução no âmbito acadêmico – o Labestrad/UFF –, devemos optar por uma tradução que de alguma forma marque o texto como brasileiro, por meio de uma estratégia estrangeirizante aos olhos do contexto receptor das legendas? Entendendo a pesquisa acadêmica como espaço de experimentação e possibilidade de resistência ao status quo, optamos por um caminho em que ambas as abordagens tradutórias pudessem ser, de algum modo, contempladas.

O referencial teórico principal da equipe de inglês é o dos Estudos da Tradução. Partimos, dentre outros, de conceitos como o de reescrita, de Lefevere (1992), que considera a tradução uma nova escrita, modelada pelas contingências sociais, históricas, políticas e ideológicas que permeiam o contexto de sua produção. No caso da tradução da ENCIDIS, o texto da legenda é um texto outro, uma reescrita modelada pelo contexto de sua produção, que é o acadêmico. A universidade tanto é um ambiente propício à reflexão e à potencial subversão de valores instituídos, como um espaço de formação de profissionais críticos, daí também a observância às regras da legendagem, as quais são baseadas em estudos e práticas diversas. Lefevere propõe, ainda, o conceito de patronagem, segundo o qual o aceite de uma encomenda/patrocínio implica o alinhamento do tradutor à ideologia do patrono (o solicitante). No caso da tradução da ENCIDIS, significa considerar tanto a teorização da Análise do Discurso francesa de Pêcheux (a área de especialidade a ser traduzida e o referencial teórico-metodológico de construção da Enciclopédia), a qual sustenta ser relevante o modo como se diz (da AD e do pesquisador), quanto observar o propósito de divulgação de ciência do projeto, o que delineia como objetivo de cada vídeoverbete ser visto e compreendido (a questão da aceitabilidade).

Outros dois conceitos importantes são os de estrangeirização – estratégia de tradução proposta por Venuti (1986, 1995, 1998) pela qual o tradutor, como gesto político, resiste e mantém as diferenças culturais no texto de chegada, podendo causar o estranhamento no leitor e, portanto, salientar a visibilidade da tradução e do tradutor – e de domesticação – estratégia da assimilação, com a supressão da diferença em prol de uma tradução mais fluente, moldada pelo gosto e pela aceitabilidade do público-receptor. Venuti propõe tais conceitos para discutir como o critério da fluência, calcado na crença da transparência da linguagem e da consumibilidade, apaga o diálogo intercultural. Para a Enciclopédia, propomos uma reformulação do que propõe Venuti, uma vez que, em nosso trabalho, temos tradutores/legendadores falantes de português do Brasil traduzindo para a língua do outro: o inglês (ou seja, trata-se de uma versão). Assim, e, nosso projeto de tradução para legendagem domesticar é traduzir para o inglês de modo fluente, de maneira que o texto de chegada pareça ter sido escrito originariamente em inglês. Estrangeirizar, por outro lado, é deixar marcas da procedência do texto – no caso da ENCIDIS é o Brasil – optando por termos e até sintaxe estranha ou incomum para o público-receptor da tradução. Nesse sentido, há momentos em que deixamos repetições, circunlóquios, hesitações, intercalações etc. de forma proposital, uma vez que estavam presentes na formulação dos pesquisadores, deixando “tropeços” para os espectadores, e marcando, assim, o texto como estrangeiro (brasileiro).

Após estudos e pesquisas, optamos por usar um software livre – o Subtitle Workshop – e elegemos como parâmetros a velocidade de 17cps (caracteres por segundo) e o padrão de até 37 caracteres por linha, podendo chegar a 40-41 caracteres em momentos específicos, por se tratar de vídeos com tema de área de especialidade e divulgados na internet, com possibilidade de pausa pelo espectador. No caso de legendas mais longas, utilizamos o critério da compensação (usando legendas mais curtas antes e depois da legenda mais longa). Traduzimos e legendamos diretamente no programa e o processo pode ser assim resumido: i) os vídeoverbetes são traduzidos e legendados individualmente ou em duplas; ii) há uma revisão coletiva feita por toda a equipe de inglês reunida e sob a orientação das professoras Giovana Campos e Vanessa Hanes; iii) há uma revisão terminológica externa, realizada pela professora Beatriz Caldas; iv) as alterações sugeridas pela revisora externa são discutidas por cada equipe; v) os arquivos de legenda são enviados para o LAS para posterior publicação no site da ENCIDIS. Durante o processo também são construídos glossários no par português/inglês para cada vídeoverbete como forma de registro das pesquisas conceituais e terminológicas que constituíram as escolhas tradutórias de termos e construções específicas e possível fonte de consulta para trabalhos posteriores.

Tomemos alguns breves exemplos para ilustrar os procedimentos de tradução e legendagem realizados pela equipe de inglês. Na primeira tabela exemplificamos o uso das estratégias de domesticação e de estrangeirização em dois segmentos de legenda. Na segunda, contrastamos as duas estratégias de tradução para um mesmo segmento de fala:

Gesto – Pedro de Souza (UFSC)
Texto-fonteLegendaCaracteres
[a palavra ‘gesto’] é definida como ato que é tomado no nível simbólico.00:00:30,467 –> 00:00:32,904
and means act

00:00:34,471 –> 00:00:37,724
taken at the level of the symbolic.

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Discussão:

* domesticação: a opção por means marca a o uso da voz ativa em vez da passiva, que é uma das regras da escrita científica em inglês, bem como representa a síntese e a simplificação usadas na legendagem. Tal escolha ainda implica uma redução do número de caracteres e, portanto, a observância à regra sobre a velocidade de leitura.

* estrangeirização: deixar taken mesmo havendo citações em inglês que omitem o termo e sendo usado um maior número de caracteres. Não houve observância à regra da síntese e nem do uso de traduções já consagradas (as quais omitem o termo: “act at the level of the symbolic”). A razão para deixar o termo se deve à compreensão de que “tomar” e “tomada” são relevantes conceitualmente para a AD, sobretudo se considerada a vertente desenvolvida no Brasil (o modo de dizer da AD brasileira).

Ideologia e Rede Eletrônica – Lucília Maria Abrahão de Souza (USP)
Texto-fonteLegendaCaracteresDiscussão
Para a análise do discurso – AD, uma teoria materialista do sentido e da linguagem e da produção de sentido, a noção de ideologia é uma noção fundamental.00:00:24,893 –> 00:00:26,662
In Discourse Analysis (DA),

00:00:26,782 –> 00:00:31,278
a materialist theory of language and production of meaning,

00:00:31,479 –> 00:00:35,250
ideology is a undamental concept.

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*estratégia eleita: estrangeirização

Na legenda final, optamos por privilegiar o português, bem como a enunciação da pesquisadora, produzindo estranhamento ao evitar uma ordem mais direta e usando o aposto, pouco comum em legendas anglófonas. Assim, as ênfases na fala da interlocutora, também marcadas em seu discurso de forma bastante visual, por meio de gestos expressivos, foram mantidas.

 

The notion of ideology is essential to discourse Analysis (DA)

a materialist theory of language and production of meaning

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* possível domesticação

Poderíamos ter optado por uma tradução mais fluente, como as legendas ao lado. Nesse caso, temos uma formulação mais direta e “objetiva”, aproximando-se mais do contexto da língua receptora (inglês), tanto no que se refere às regras da escrita científica quanto da simplificação na legendagem.

A partir das leituras e do trabalho de tradução e legendagem realizados, acreditamos ser necessária análise das questões de poder que constituem os processos da escrita cientifica no Brasil e no mundo, bem como suas traduções, em diversas modalidades. E para fazermos isso, é preciso pensarmos sobre as concepções de língua que atravessam esses modos de compreender a tradução e a produção de sentidos no campo científico.

 

Labestrad – Laboratório de Estudos da Tradução da UFF
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